A Europa trocada
Não há uma única cara nas notas de euro. Há
pontes e fachadas e talvez outras coisas feitas por alguém, mas não há
heróis e pessoas, não há homenagens a europeus que podiam ser
distinguidos e lembrados - por exemplo, os que fizeram essas e outras
obras - e que nos podiam talvez aproximar mais um pouco uns dos outros,
recordando uma história comum que teve assassinos e monstros, mas que
também viu nascer e cultivou génios e pessoas que lutaram a favor do bem
contra o mal e que ficariam bem na face destas notas de 20 ou de 100 ou
até nas de 5 euros. Os burocratas europeus quiseram fugir da polémica
como hoje escapam das decisões mais difíceis que têm de tomar. Arrastam
os pés. E então não há heróis nas notas. Ninguém reclamará que nas de
500 está um poeta deste e não daquele país, um cientista francês e não
um alemão, o Pessoa ou o Cervantes, este ou aquele, o campeonato dos
egos nacionais baniu, à cautela, as caras, os nomes e os apelidos, as
origens que nos compõem e complementam. A memória europeia foi varrida
para as moedas, porque pelos vistos é uma questão de trocos. O facto de
as principais decisões financeiras serem tomadas no Eurogrupo, um órgão
sem existência formal e sem atas - dois factos extraordinários aceites
com passividade absoluta - que menoriza o que se discute no Parlamento
Europeu (uma semifarsa em que só há aparência de poder), é outro dos
símbolos desta Europa em perda - perda de legitimidade democrática,
perda de identidade, perda de força. A história não tem de acabar mal.
Mas a possível eleição de um governo de extrema-direita na Áustria, que
tem 5% de desemprego, a subida da direita radical na Alemanha e na
Polónia e a desgraça a que se assiste na Hungria, onde pontifica o
perigoso Viktor Orbán, sem esquecer o ímpeto marxista do Podemos (o que
quer mesmo?) e a balbúrdia do Syriza (desistiu da revolução?), tudo isso
deveria obrigar os europeus a reagir e a juntar-se. A crise financeira,
de que o brexit é sintoma, o drama dos refugiados e os Estados falhados
que se amontoam e armam à volta da Europa, contra a Europa - tudo isso
obriga a que haja finalmente uma reação política capaz de vencer a
inércia. Os líderes atuais? Esses nem nas moedas merecem estar.
Editorial do Diário de Notícias de Lisboa
Editorial do Diário de Notícias de Lisboa
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