Zema, o parvo
Opinião do Josias de Souza - No UOL
Rejuvenesça o Zema e devolva-o à maravilhosa infância produtiva…
Espantosa época a atual, em que o absurdo vai ganhando uma doce e persuasiva naturalidade. A candidatura de Romeu Zema ao Planalto já vinha despertando inúmeras interrogações. De repente, o candidato desafiou o eleitor a reinserir nos seus hábitos também o ponto de exclamação. No 1º de Maio, Dia do Trabalhador, defendeu em entrevista ao podecast Inteligência Ltda. que crianças possam trabalhar.
Em defesa da produtividade precoce, Zema mencionou o seu próprio exemplo. Disse que trabalha desde os cinco anos de idade, e que começou contando parafusos e porcas na loja do seu pai. Queixou-se de que a esquerda brasileira "criou essa noção de que trabalhar prejudica criança", como se trabalho escravizasse menores de idade. Prometeu: "Tenho certeza que nós vamos mudar isso aí".
Zema ignorou os fatos. No Brasil, a proibição do trabalho de crianças não surgiu de um capricho ideológico. Emergiu de uma longa história de exploração. A realidade mostrou que criança trabalhando cedo tende a estudar menos, ganhar menos no futuro e perpetuar os ciclos de pobreza.
Chamar isso de "escravidão" é uma inversão retórica que despreza justamente o oposto: a legislação tenta evitar que a necessidade econômica empurre crianças para situações de exploração real. Diante da repercussão negativa de sua fala, Zema mostrou que não são apenas os erros que arruínam uma candidatura, mas a forma como o candidato reage depois de cometê-los.
Em vídeo pendurado nas redes neste sábado, Zema declarou: "Vamos parar com essa hipocrisia. Eu defendo, sim, dar oportunidades de trabalho para adolescentes, porque educação e trabalho digno é o que forma caráter, disciplina e futuro".
A legislação brasileira já permite que meninos de 14 anos trabalhem, mas como menores aprendizes, com horário máximo de seis horas e estímulo à frequência escolar. Mas Zema deseja reduzir a idade mínima para o trabalho: "Precisamos ampliar essas oportunidades com proteção, sem atrapalhar a escola, como já acontece em muitos países desenvolvidos." Mais um pouco e o presidenciável do partido Novo vai exigir "experiência profissional" como critério para alfabetização.
A lorota de que o absurdo é admitido em outros países também não orna com os fatos. Ocorre justamente o contrário. Há um consenso global contra a exploração do trabalho infantil. A Organização Internacional do Trabalho define regras amplamente adotadas no mundo. Estipulam que 15 anos é a idade mínima padrão para o trabalho.
Pelas normas da OIT, 15 anos é a idade mínima padrão para o trabalho de adolescentes. A entidade considera admissível o trabalho aos 14 anos nos países em desenvolvimento, sob critérios rígidos. Abre exceção para que crianças de 12 ou 13 anos realizem trabalhos leves em circunstâncias especialíssimas. Por exemplo: ajudar em pequenos negócios familiares, desde que a atividade não prejudique a saúde física ou mental nem atrapalhe a frequência à escola.
Zema parece ambicionar para o Brasil um retorno ao passado que submetia as crianças a uma realidade intolerável. Quase todos os países do mundo impõem limites ao trabalho infantil. O desafio é a fiscalização. O trabalho infantil ilegal ou informal é mais comum em pedaços do mapa como a África Subsaariana, o Sul da Ásia e o Sudeste Asiático. Mas não é incomum no Brasil.
Os dados mais recentes foram coletados pelo IBGE em 2024 e divulgados no ano passado. Revelam que há 1,65 milhão de crianças e adolescentes trabalhando à margem da lei. Isso representa 4,3% desse nicho da população. Houve um leve aumento em relação a 2023, quando 4,2% das crianças e adolescentes brasileiros trabalhavam ilegalmente.
Ou seja: depois de anos de queda, o flagelo parou de melhorar e voltou a registrar ligeira piora. A ilegalidade é mais comum no comércio, na agricultura e nos serviços domésticos. Algo como 560 mil crianças estavam nas piores formas de trabalho infantil: as atividades perigosas, insalubres e degradantes.
Nesse contexto, a pretensão de Zema não significa apenas lavar as mãos para o problema. O candidato sugere favorecer a oligarquia que deseja fazer sumir o sabonete. Uma novidade assim, cheirando a naftalina, estimula a percepção de que a maior contribuição que o candidato pode fazer pelo país é não se eleger. Ao eleitor não resta senão promover rejuvenescimento de Zema, devolvendo-o aos negócios da família, onde experimentou o paraíso da infância produtiva.
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