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18 cabos submarinos, na Praia do Futuro, Interligam as comunicações do mundo





Por Elizabeth Rebouças da Editoria de Geral do Jornal OEstadoCe
Fortaleza consolidou-se como o maior hub da América Latina e a estratégia do governo estadual direciona os novos data centers para os municípios do interior e para a ZPE no Pecém.
Por Elizabeth Rebouças
Atualmente, pela Praia do Futuro, em Fortaleza, existem 18 sistemas de cabos submarinos de fibra óptica que conectam o Brasil diretamente à Europa, Estados Unidos, África e ao restante da América Latina. É por meio deles que os dados navegam entre os continentes: os filmes que passam pelos serviços de streaming, as fotos compartilhadas pelas redes sociais e os arquivos salvos na nuvem. Segundo a TeleGeography, consultoria que mantém uma base de dados sobre infraestrutura de telecomunicações, é a primeira na América Latina. Com 28 cabos, o primeiro do ranking é Cingapura.
Um vídeo, circulou recentemente nas mídias, levantou a hipótese de um cenário de conflito com o Brasil, bastaria ao governo dos Estados Unidos atacar a Praia do Futuro, para "desligar" a internet brasileira e isolar o país do resto do mundo. Se isso tem possibilidade de acontecer perguntamos ao diretor Técnico da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), Danilo Reis Vasconcelos, que considerou a publicação alarmista.
Na visão de Danilo, o risco de isso acontecer é quase nulo. “Quando ocorre sabotagem é de corte de cabos em alto mar e não afetaria tanto. Iria restringir a Banda, a velocidade, mas a comunicação fluiria por outros pontos”. O Diretor explica que esta imensa teia de fibra óptica não pertence exclusivamente ao governo brasileiro, mas a uma parceria com potências tecnológicas do mundo — quase todas sediadas nos próprios Estados Unidos e conclui: “Atacar este ponto estratégico significaria, literalmente, o governo americano bombardear ativos privados de Wall Street, provocando um colapso imediato nas ações de suas próprias empresas. Na geopolítica real, um ataque ao hub digital cearense seria o equivalente a um país atirar no próprio pé para tentar assustar o vizinho.”
Estima-se que entre 80% e 90% do tráfego de dados que flui por Fortaleza seja consumido por serviços de companhias norte-americanas, de plataformas de entretenimento (como Netflix e Disney) a serviços essenciais corporativos em nuvem e redes sociais. O impacto financeiro diário dessas plataformas seria avassalador para a economia estadunidense.
Mirando o interior
Danilo Reis Vasconcelos confirmou aO Estado que embora a Praia do Futuro seja o ponto de chegada dos cabos, “a região enfrenta limitações para a expansão de grandes centros de dados de hiperescala devido à sua característica urbana e residencial, que impede a conexão direta à rede básica de alta tensão. Esse gargalo técnico deslocou o eixo dos novos investimentos para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém e para o interior do estado”. O Ceará dispõe do Cinturão Digital do Ceará (CDC), um backbone de fibra óptica com 5.955 km de extensão que interliga a capital a praticamente todos os municípios cearenses.
Para atrair data centers para além da Região Metropolitana, a Etice planeja licitar seis pares de fibra óptica apagada (inativa) por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) já em 2027. Segundo a estratégia estadual, o objetivo é fixar a infraestrutura digital próxima aos grandes polos de geração de energia eólica e solar no interior, criando um ecossistema de inovação que integre empresas e universidades em áreas remotas.
Causas da Competitividade
A competitividade internacional do Ceará repousa, segundo Danilo, em uma combinação de quatro fatores que os hubs tradicionais do hemisfério norte, como o Texas e a Virgínia (EUA), começam a perder: O excedente de energia renovável, a eficiência hídrica, segurança jurídica e fiscal e a conectividade de redes neutras.
Enquanto os EUA enfrentam saturação em suas redes elétricas, o Ceará possui um excedente de 2.800 MW de energia limpa (eólica e solar), garantindo suprimento estável sem inflacionar a conta de luz da população local. Diferente dos projetos norte-americanos que enfrentam forte resistência pelo consumo massivo de água, o modelo cearense (como o da OMNIA no Pecém) utiliza tecnologia de circuito fechado, reduzindo o consumo de água a níveis insignificantes.
Quanto a segurança jurídica e fiscal, a ZPE Ceará permite a importação de hardware de alta tecnologia com isenção tributária, fator crítico já que 85% dos componentes de um data center são importados. E a integração entre os cabos submarinos e a capilaridade do Cinturão Digital permite que o Ceará atue como uma plataforma global de exportação de processamento de dados, e não apenas como um consumidor de tecnologia.
Na opinião do Diretor Técnico da Etice, com essa base, o “Ceará se posiciona não apenas para abrigar dados, mas para liderar a nova economia digital sustentável, transformando sol, vento e fibra óptica em riqueza e soberania tecnológica”.
Alguns desses gigantes
O 18º cabo internacional que será ancorado em Fortaleza é o Synapse, com cerca de 9.700 km de extensão e foco em inteligência artificial. Anunciado pela V.Tal, Rede Neutra de telecomunicação, o sistema conectará Tuckerton, em Nova Jersey (EUA), à cidade de São Paulo (Praia Grande. As obras estão previstas para começar neste segundo semestre de 2026, com conclusão estimada entre 2029 e 2030.
O Monet é um cabo submarino de fibra óptica operado pelo Google em um consórcio que inclui também a Angola Cables, a Algar Telecom e a Antel (Uruguai). Ele conecta Fortaleza (com chegada na Praia do Futuro) a Santos (SP) e a Boca Ratón, na Flórida (EUA). O sistema de cabo submarino EllaLink opera em Fortaleza conecta diretamente à cidade de Sines, em Portugal, com extensões para outras localidades. Foi inaugurado em 2021, sendo o 16º do sistema.
Fortaleza possui o SACS (South Atlantic Cable System), o primeiro sistema de cabos submarinos de fibra óptica a cruzar o Oceano Atlântico Sul, que liga diretamente a capital cearense a Luanda, em Angola. O cabo percorre mais de 6.200 km pelo fundo do oceano.

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