Apesar de fazerem parte do mesmo conglomerado de mídia, Globo e GloboNews tomaram caminhos bem diferentes na abordagem de uma fala de Flávio Bolsonaro em que ele prometia usar a maioria no Congresso para mudar a Constituição. Enquanto o Jornal Nacional tratou o assunto como algo secundário, uma comentarista do canal de notícias falou que o presidenciável tem "DNA golpista e antidemocrático".
No principal telejornal do país, a frase de Flávio sequer foi o gancho da notícia. César Tralli anunciou a reportagem de Honório Jacometo por outro assunto. "Flávio Bolsonaro, do PL, recebeu hoje o apoio de Ronaldo Caiado, que concorreu à Presidência pelo PSD", disse o âncora.
Depois de citar que o filho de Jair Bolsonaro teve uma reunião com o governador reeleito Tarcísio de Freitas, foi exibido cenas do evento em Goiânia que reuniu o candidato com políticos aliados no Estado --entre eles, Caiado.
O repórter, então, ressaltou que Flávio repetiu no encontro o seu compromisso de acabar com a reeleição e só depois, de maneira suavizada, citou a fala sobre as mudanças na Constituição. "O candidato disse que, se eleito, vai usar a maioria no Congresso para propor mudanças na Constituição."
No Central das Eleições, do GloboNews, Natuza Nery e Flávia Oliveira foram bem menos positivas sobre a frase do presidenciável. "O 'redemocratizar' fica piscando em letras garrafais por causa do nosso passado recente em relação à tentativa de golpe de Estado", alertou a primeira.
"Por causa do nosso passado recente e por causa desse DNA golpista antidemocrático da família Bolsonaro. Veja: esqueça a trama golpista. Jair Bolsonaro sempre defendeu a Ditadura Militar [1964-1985], os métodos, o domínio", completou Flávia.
"Então, trata-se de uma família, de um clã, que nunca teve apreço pelo que se entende como democracia no sentido de respeito à vontade popular, de equilíbrio e harmonia entre os [três] poderes, de contraditório, do debate democrático", seguiu a comentarista.
"Quando ele afirma que já tem maioria no Senado e maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara, para mudar a Constituição e promover a redemocratização, é preciso entender o que é isso. Vamos qualificar o que é a Constituição brasileira que, aliás, ontem fez 38 anos, 5 de outubro é o dia da promulgação", ressaltou Flávia.
"Pois bem, é a Constituição que assegura o Sistema Único de Saúde, Ministério Público, igualdade de gênero, liberdade religiosa, educação pública e gratuita, demarcação de territórios indígenas sem marco temporal, toda a legislação que assegura proteção ao meio ambiente, os direitos fundamentais, os direitos civis, as liberdades individuais, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa", listou.
"Então, há um conjunto de direitos assegurados, e alguns ainda não praticados --muitos deles, porque a gente continua sendo uma nação muito desigual--, que estão ancorados, fundeados nessa Constituição de 1988", lembrou ela.
"Um candidato, a posteriori, depois da eleição de uma maioria no Senado e no Câmara, anunciar que quer mudar a Constituição é algo efetivamente perigoso, que precisa ser muito explicado. Houve um voto de confiança da população, expresso nas urnas no domingo [4], e agora esse cheque em branco parece estar começando a ser descontado ou escrito", cravou.

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