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A culpa não é da Renata Lo Prete: ela é séria e competente
“A verdade é incontrovertível. A malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas, no fim, lá está ela.” — Winston Churchill
Até 25 de outubro, o Brasil honesto e digno vai se equilibrar entre a angústia, o medo e a esperança. A angústia de saber que existe a hipótese de o obscurantismo voltar. O medo é consequência dessa possibilidade. Se Flávio Bolsonaro vencer, e não vai vencer, o Brasil terá andado milhares de casas para trás no tabuleiro da vida. Não é uma derrota natural que pode ocorrer numa eleição democrática, não é perder uma eleição numa democracia, é perder a democracia em uma eleição. É o caos. O atraso. A volta da fome. O fim da cultura, a sucateação do SUS, o estrangulamento da educação, enfim, a barbárie sendo implantada por bárbaros.
Tenho recebido muitas críticas à atuação de Renata Lo Prete na entrevista com o miliciano. Renata é uma grande jornalista. Séria. Competente. O problema é entrevistar um mitômano, uma pessoa completamente falsa, sem ética, sem limites. Tenho escrito há tempos sobre a dificuldade de debater com quem não tem critérios éticos e democráticos. A pergunta pode ser bem-feita e séria, e a resposta vem sem nenhum compromisso com a verdade, com os fatos. É importante pensar nisso e denunciar. É impossível debater, entrevistar quem não tem limites.
Renata trouxe uma questão gravíssima. Flávio apresentou o Projeto de Lei 3.723, de 2019, para alterar o Estatuto do Desarmamento, retirando a marcação, a exigência de identificação nas cápsulas das balas, para, claramente, atender às milícias e aos matadores de aluguel. Dificultar a identificação dos criminosos. O grupo dele, que ele representa. Ele fugiu da resposta. Ela insistiu. Ele disse que era um “detalhezinho!”. O que mais ela poderia fazer? Dar voz de prisão? Ora, esse projeto foi apresentado no Congresso e não me lembro de ter provocado indignação. É óbvio que é um projeto que só serve aos marginais, aos profissionais do crime. A entrevistadora foi até onde pôde ir. O silêncio dele só repercute o imenso silêncio da mídia sobre um assunto tão grave quando o projeto foi apresentado.
É igual à mentira sobre a prestação de contas do criminoso contrato do filme Dark Horse. A mídia toda engoliu em seco a mentira da falsa prestação de contas. Inclusive a omissão da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo. Vamos agora culpar a entrevistadora?
Flávio sabe que surrupiou mais de 80 milhões de dinheiro público para o tal filme. Ele simplesmente vestiu uma máscara e disse dezenas de vezes: “Não tem dinheiro público, está tudo explicado e é um negócio privado.” Todas as pessoas sérias sabem que não é verdade. Não há nenhuma dúvida de que o dinheiro é público e, é óbvio, não houve prestação de contas. Mas o eleitorado dele acredita. A única maneira de realmente questionar seriam medidas cautelares propostas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, com decisão da Justiça. Não ocorreram. Ele vai continuar zombando da cara de todos e dizendo que já explicou. E o seu eleitorado, exultando. É o império da hipocrisia e da mentira.
É como a questão da grande conquista dos trabalhadores com o fim da jornada 6×1. Êxito evidente do governo Lula. Flávio Bolsonaro, de maneira oportunista, liberou seu grupo para votar. Ele não compareceu à sessão de votação. Mas já disse que, se eleito, vai mudar o projeto, mesmo tendo apoiado. Não vai, porque não vai ganhar. Não vai derrotar os trabalhadores outra vez. Não vai derrotar o Brasil.
Escrevi, logo após o fim do primeiro turno, que o que nos deu chance e fôlego para tentar salvar a democracia foi termos chegado atrás no primeiro turno. Se tivéssemos tido mais votos, seríamos massacrados neste segundo turno. A campanha estava morna, analógica, sem tesão, desorganizada. Mas, com a derrota no primeiro turno, em vez de bater o desespero, veio a premência de mudar. É outra campanha. Com cheiro de virada. Com alegria e medo ao mesmo tempo. Faz bem. As pessoas, milhões de jovens, tomaram as ruas sem que o chamado viesse da campanha. Foi a ânsia de liberdade, a ânsia da vida por si mesma, o terror à barbárie, o susto da violência institucional, a lembrança da ditadura, a sombra das mortes na pandemia, o nojo da ultradireita atrasada e castradora. Os jovens foram para as ruas com mais força do que nas Diretas. É um inconsciente coletivo.
Agora temos a certeza da necessidade de manter a democracia. Não é direita e esquerda. É morte e vida. Barbárie e civilização. Ar puro ou falta de ar. Cultura ou obscurantismo. Saúde ou doença. Vacina ou peste.
Vamos virar porque precisamos ganhar. Não dá para entregar o Brasil para esse bando. Estou em Paris, trabalhando, e volto para votar. É incrível a onda de solidariedade ao Brasil. A repercussão não é só nos grandes jornais. As pessoas sabem o que significa Bolsonaro. Ainda estão vivas em todos a prepotência, o descaso e a crueldade na pandemia. E a ignorância profunda, a prepotência burra, nas relações internacionais. A subserviência como regra. Com a derrota de Bolsonaro em 2022, mais do que com a vitória de Lula, o Brasil voltou a respirar. Vamos virar. Vamos dar uma chance à vida e à democracia.
Lembrando Pessoa, na pessoa de Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: “Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida.”
Cacá - Advogado criminalista em Brasilia

Este artigo não representa, necessariamente, a posição da Revista Fórum.

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