Na reta final da campanha para as eleições legislativas, ex-presidente assume protagonismo em comícios e turbina oposição contra Donald Trump.
Por Eduardo Graça — Austin, EUA*
01/11/2026 00h00 Atualizado há 11 horas
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Ex-presidente dos EUA Barack Obama (C) ao lado do candidato democrata ao Senado, Abdul El-Sayed, e da candidata do partido ao governo do Michigan, Jocelyn Benson
“Sim, nós podemos.” A frase tem sido repetida, em coro, aos berros, em comícios da oposição nas semanas derradeiras das eleições de meio de mandato nos EUA, que acontecem na terça-feira. Nesses eventos, lotados, se o apoiador mais distraído do Partido Democrata fechar os olhos, é capaz de entrar em uma máquina do tempo. Retorna a 2008, quando um então jovem senador do estado de Illinois virou de pernas para o ar o cenário político do país.
Aos 65 anos, o Barack Obama que surgiu em comícios no Texas, na Geórgia, no Michigan e em Ohio está grisalho. Mas o sorriso aberto, sua marca registrada, a energia e o uso cirúrgico da ironia para golpear adversários notórios pela preferência ao deboche mais raso não parecem ter envelhecido. Ao contrário. Uma nova geração de políticos em estados com enorme contingente de voto conservador revisita sua trajetória singular para a renovação da sigla, de olho em uma realidade sem a presença do presidente Donald Trump, impedido de disputar a reeleição em 2028.
Pesquisas sobre as eleições de meio de mandato nos EUA — Foto: Editoria de Arte
Para o cientista político Jonathan K. Hanson, professor emérito na Universidade de Michigan, o resultado das urnas pode impulsionar um processo de rejuvenescimento do Partido Democrata, moldado a partir de candidatos ao Senado como Jon Ossoff, na Geórgia, Abdul El-Sayed, no Michigan, e James Talarico, no Texas, além de aspirantes a governos estaduais, entre eles a médica Amy Acton, no Ohio. Todos tratam abertamente do legado dos anos Obama, com discurso voltado para a denúncia do aumento das desigualdades sociais e econômicas e do alienamento dos mais pobres em uma Casa Branca frequentada por bilionários, notadamente os capitães das big tech.
— Para esses novos democratas, Obama é uma presença ao mesmo tempo tranquilizadora e inspiradora. Voltar a ele escancara a falta de um líder capaz de articular de forma clara e direta, desde então, as muitas críticas ao Trump 2.0 que os eleitores têm. Sua estatura e o modo como as faz impulsionam campanhas especialmente em estados onde não há preponderância do voto progressista. Ele está fazendo diferença — afirma Hanson, que trabalhou no Capitólio na assessoria de congressistas democratas nos anos Obama.
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Dois registros revelam como o próprio Obama, que não pode ser candidato à Presidência, está se divertindo no retorno aos holofotes. Há uma semana, ele participou, no Michigan, do comício de El-Sayed, médico sanitarista que busca se tornar o primeiro senador árabe-americano no Capitólio, e de Jocelyn Benson, secretária de Estado e candidata ao governo do estado do Meio-Oeste, decisivo no Colégio Eleitoral em 2028.
Primeiro, o ex-presidente fez uma das críticas mais pungentes à corrupção, ao capitalismo de compadrio e à incompetência, tanto na política interna quanto externa, do Trump 2.0. Na sequência, voltou-se para as recentes reformas na Casa Branca, onde morou por oito anos:
— Ficou parecida com uma unidade da [rede de restaurantes] Cheesecake Factory se o [ex-ditador iraquiano] Saddam Hussein tivesse aberto sua própria franquia.
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Antes de sair, fez uma firula com o microfone ao devolvê-lo à produção. A prova de destreza viralizou nas redes sociais e lembrou os eleitores de como era ter um sujeito cool em Washington.
Em seguida, o primeiro presidente negro dos EUA já estava em Ohio, ao lado de seu ex-colega de Senado Sherrod Brown, líder nas pesquisas para voltar ao Congresso, e de uma política cinco anos mais jovem do que Obama. A médica Amy Acton diz que Obama foi inspiração central para sua entrada na política. Candidata ao governo e à frente nas sondagens, destacou-se ao liderar a reação local à pandemia.
Acton acabara de sofrer um dos ataques mais brutais deste ciclo eleitoral. Seu adversário, o empresário trumpista Vivek Ramaswamy, divulgou um vídeo com a mãe da democrata. As duas não se falam desde a denúncia de abuso sexual contra o padrasto. Na gravação, ela chama a filha, que a acusou de proteger o marido e não ela, de mentirosa. Até políticos republicanos se indignaram publicamente com o golpe baixo, defendido, no entanto, tanto por Trump quanto pelo vice-presidente JD Vance. Sério, lábios cerrados, os olhos bem abertos em direção à audiência, Obama foi duro:
— Não há limite que não ultrapassem, nem nível tão baixo a que não desçam para atrair os holofotes.
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Ele retornou ao humor no compromisso seguinte, na Geórgia. Em Atlanta, foi a atração principal em evento que reuniu outros dois candidatos que têm no político de Chicago influência central. Jon Ossoff lidera as pesquisas com folga para se reeleger ao Senado e é comparado tanto a Obama quanto a John F. Kennedy. Já a postulante ao governo, a ex-prefeita da capital Keisha Lance Bottoms, é uma das mulheres negras de maior destaque na política e aparece em disputa acirrada com o empresário republicano Rick Jackson.
No evento, o ex-presidente repetiu suas críticas ao Trump 2.0. Desta vez, destacou a reação da Casa Branca aos seus comentários no Michigan:
— Eles mobilizam o governo inteiro para responder a uma piada, mas não falaram da inflação. Ignoraram a corrupção, a menção que fiz a um ditador e os preços altos, que impedem as famílias de comer fora.
Ex-presidente americano Barack Obama teceu duras críticas ao seu sucessor, Donald Trump, durante comícios realizados em Ohio e Michigan — Foto: Jeff Swensen/AFP
Ex-presidente americano Barack Obama teceu duras críticas ao seu sucessor, Donald Trump, durante comícios realizados em Ohio e Michigan — Foto: Jeff Swensen/AFP
A Casa Branca, destacou Obama, mobilizou até o secretário do Tesouro, Scott Bessent — descrito por ele como “um ex-gestor de fundos para ricos com uma fortuna de centenas de milhões de dólares” — para aparecer em frente a um restaurante da rede Cheesecake Factory e mostrar o que ele havia pedido do cardápio. Populismo vazio, afirmou:
— Eles não são sérios, não têm soluções para os problemas reais dos cidadãos e usam de tudo para distrair os eleitores do que importa.
Manual pós-trump
A rapidez na resposta e o uso de elementos claros para a população são percebidos pela nova classe de democratas como um manual para os anos pós-Trump. Um dos apresentadores do podcast Matter of Opinion, do New York Times, o vencedor do Pulitzer Carlos Lozada teve “flashbacks” das primeiras campanhas de Obama na de El-Sayed.
Assim como há duas décadas, os estrategistas se prepararam para o ataque do outro lado ao que se busca traduzir como “estrangeiro”. Em uma das propagandas de El-Sayed, uma avó assustada pergunta: “De onde ele saiu?” e “que nome é esse?”. A explicação é didática e o esforço seguiu em todo ciclo, inclusive com o protagonismo dado à própria avó materna do candidato, Judy, e a seu marido, Jan, cujas famílias estão no Michigan desde o século XIX. Os ataques islamofóbicos e até o nome de batismo do filho de imigrantes egípcios, que tem um Mohammed no meio, lembram, argumenta Lozada, o estranhamento com um certo Barack Hussein Obama.
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Faz sentido, para os democratas, olhar para o futuro, às vésperas de uma possível vitória, com a atenção de volta para o passado. A diferença central, de lá para cá, argumenta o articulista, está na marcha do Partido Republicano para a extrema direita desde a ascensão de Trump.
Ele usa como exemplo o episódio ocorrido durante a campanha do então senador John McCain, derrotado pelo democrata em 2008. Uma eleitora idosa interrompe sua fala, pega o microfone e diz não poder confiar em Obama “por ele ser árabe”. O veterano herói de guerra a interrompe e afirma, gentil mas com autoridade, não se tratar da verdade.
— Ele é um homem decente, um cidadão americano de quem eu discordo politicamente em temas cruciais. Esta campanha é sobre isso.
*Enviado especial

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