O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008, publicou artigo no qual ataca a decisão do governo Trump de impor tarifas ao Brasil com base, entre outros argumentos, no sucesso do Pix, o sistema de pagamentos digitais lançado pelo Banco Central brasileiro há quase seis anos. Para ele, a medida não é apenas economicamente equivocada, sendo também a expressão de um governo refém de interesses privados que declarou “guerra ao futuro”.
“Na quarta-feira — por coincidência, no primeiro aniversário de um artigo que publiquei elogiando o Pix e sugerindo que ele pode representar o futuro do dinheiro — o governo Trump tentará punir o Brasil por esse sucesso. Fará isso impondo tarifass obre as exportações brasileiras com base no Artigo 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite tais tarifas para combater ‘práticas comerciais desleais’“, escreve Krugman.
O economista questiona a lógica da acusação. Para ele, o Pix nada mais é do que uma versão digital do real, equivalente, como definiu um relatório do Federal Reserve em 2022, a “uma forma digital de dinheiro em papel”.
“Os bancos brasileiros são obrigados a oferecer o Pix, o que, segundo os apoiadores de Trump, lhe confere uma vantagem injusta sobre cartões de débito e outros métodos de pagamento. Mas essa exigência é fundamentalmente semelhante à exigência de que todos os bancos dos EUA aceitem notas de dólar como depósitos e as distribuam mediante solicitação, o que poucas pessoas considerariam injusto.”
Krugman aponta quem, de fato, sai perdendo com o avanço do Pix: a Visa e a Mastercard. “Mas desde quando é prática comercial desleal uma empresa perder clientes para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?”, provoca. “Por exemplo, deveríamos fechar o serviço postal dos EUA porque ele oferece um serviço de entrega de correspondências melhor e mais barato do que a UPS ou a FedEx? Deveríamos fechar o PayPal e o Venmo porque competem com a Mastercard e a Visa?”, questiona.
O Nobel também critica a ausência de um equivalente estadunidense ao Pix. No ano passado, republicanos na Câmara aprovaram um projeto que não apenas proibia a criação de uma moeda digital pelo Federal Reserve, como vedava qualquer estudo sobre o tema.
“Os interesses do setor de criptomoedas, em particular, estão muito preocupados com a possibilidade de os consumidores que têm acesso a dólares digitais perderem o interesse em stablecoins e outros produtos de criptomoedas, porque esses produtos, por serem arriscados e complicados de usar, não seriam competitivos com um sistema que simplesmente permite que as pessoas façam pagamentos eletrônicos em dólares”, pontua.
Para Krugman, “o sucesso do Brasil é especialmente irritante para os promotores de criptomoedas, pois contrasta fortemente com os resultados de outra experiência monetária latino-americana: a tentativa de El Salvador de tornar o Bitcoin um importante meio de pagamento. O governo do presidente Nayib Bukele legalizou o Bitcoin e gastou grandes somas tentando promover seu uso. No entanto, o esforço fracassou : a criptomoeda nunca se consolidou como meio de pagamento, e a queda no preço do Bitcoin desde o último outono causou grandes prejuízos ao governo de El Salvador”.
Krugman prevê que as tarifas serão ineficazes. E cita a economista brasileira Monica de Bolle, do Instituto Peterson de Economia Internacional. “O desvio de comércio global como reação às tarifas americanas transformou o Brasil em uma potência exportadora.” E conclui: “O governo Trump declarou guerra ao futuro, e uma coisa que sabemos sobre Trump é que ele nunca admite quando suas guerras de escolha fracassam.”
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