Veja análise
O cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe, fez uma análise detalhada do debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado nesta sexta-feira (23) pela TV Globo, e apontou vitória do presidente no embate. O levantamento atribui a Lula notas superiores nos três últimos blocos e destaca o caso Ana Clara como o momento de maior impacto do presidente.
Na síntese da análise de Lavareda divulgada pelo jornalista Ricardo Noblat, Lula recebeu média de 7,8, contra 7,0 de Flávio. O senador teve uma pequena vantagem no primeiro bloco, mas Lula cresceu a partir do segundo e registrou sua maior diferença no quarto, quando recebeu nota 8,4, contra 6,3 do adversário.
Lavareda destacou especialmente a reação de Lula após começar o confronto demonstrando irritação e dificuldades para administrar o tempo. Segundo ele, o presidente passou a associar sua trajetória pessoal às políticas sociais implementadas em seus governos, além de apresentar realizações nas áreas de renda, crédito e educação.
O analista chamou atenção para dois episódios em que Lula cobrou explicações do adversário: a votação sobre licença-maternidade, que levou Flávio a reconhecer um erro, e o ataque capacitista dos “nove dedos”, pelo qual o senador acabou pedindo desculpas.
Caso Ana Clara colocou Flávio na defensiva
Para Lavareda, o momento mais forte de Lula foi a cobrança sobre a atuação de Flávio Bolsonaro na defesa de um policial militar acusado de matar Ana Clara, uma menina de cinco anos atingida por um disparo de fuzil em Niterói (RJ), em 2021.
A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, estava na plateia do debate. Flávio, que havia integrado gratuitamente a defesa do policial, confundiu o nome da mãe com o da filha morta e insistiu na inocência do acusado.
“A pergunta sobre a defesa do policial acusado de atirar numa criança de cinco anos colocou Flávio claramente na defensiva. Lula combinou autoridade, experiência e proteção às vítimas”, avaliou Lavareda em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.
O pesquisador também apontou que o senador perdeu força pelo excesso de bordões, informações imprecisas, manifestações de deboche e falta de detalhamento da proposta de corte de gastos chamada de “tesouraço”.
Apesar das críticas, Lavareda reconheceu que Flávio apresentou argumentos de fácil circulação nas redes sociais sobre preço dos alimentos, endividamento, juros e segurança pública, além de demonstrar mais disciplina do que no debate anterior, realizado pela Band.
Impacto eleitoral e reta final
Na avaliação do cientista político, Lula projetou experiência administrativa e associação com políticas públicas já executadas, enquanto Flávio transmitiu energia e capacidade de confronto, mas manteve uma postura mais próxima à de um candidato de oposição do que à de um chefe de Estado.
Lavareda também considerou que as reações ao debate podem ter impacto entre eleitores indecisos, mulheres e pessoas menos identificadas com posições partidárias, especialmente aquelas sensíveis a programas sociais e à proteção de vítimas.
O pesquisador, entretanto, fez uma ressalva importante: o desempenho em um único debate não permite afirmar que houve uma mudança nas intenções de voto ou uma virada eleitoral. Segundo ele, a consolidação das preferências e o comparecimento às urnas continuam sendo decisivos.
A análise foi divulgada na véspera do segundo turno, marcado para este domingo (25).

Nenhum comentário:
Postar um comentário