Ação acusa candidato do PL de transformar Festa do Peão em “showmício” disfarçado, com uso de estrutura custeada por empresas e órgãos públicos
Foto - Flávio Bolsonaro durante Festa do Peão em Barretos
Crédito: Charles Vieira
247 – A Coligação Brasil Pronto Pra Mais, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acionou a Justiça Eleitoral contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, acusando-o de abuso de poder econômico durante a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, em São Paulo. A ação pede a cassação do registro de candidatura de Flávio e de seu vice, Alfredo Gaspar, além da declaração de inelegibilidade por oito anos.
A campanha sustenta que a participação de Flávio no evento foi planejada para promover sua candidatura diante de um grande público, com pedido de voto, uso de estrutura profissional de som e luz e ampla divulgação política em um ambiente financiado por empresas privadas e órgãos estatais.
A Festa do Peão de Barretos de 2026 ocorreu entre 20 e 30 de agosto, no Parque do Peão, e é apresentada por seus organizadores como um dos maiores festivais do gênero na América Latina. De acordo com a ação, o evento reuniu cerca de 60 mil pessoas no momento em que Flávio Bolsonaro foi chamado ao palco principal pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição.
A coligação de Lula afirma que Tarcísio apresentou Flávio como “herdeiro” político de Jair Bolsonaro e que houve pedido explícito de voto. No discurso, segundo a peça, o candidato do PL se autodeclarou o “futuro Presidente do Brasil”.
Para a equipe jurídica de Lula, o episódio não foi uma manifestação espontânea, mas um ato eleitoral organizado dentro da programação oficial da festa. A ação classifica a participação de Flávio como um “showmício” disfarçado, patrocinado com recursos privados e públicos, o que configuraria financiamento empresarial indireto de campanha, prática proibida pela legislação eleitoral brasileira.
Os advogados apontam que, antes do discurso de Flávio, o locutor do evento, Cuiabano, fez uma apresentação com características de ato de campanha. A peça cita “discurso inflamado com expressões típicas da linha de campanha de Flávio Bolsonaro”, uso de luzes, interação com a plateia e repetição pausada do nome do candidato: “FLAAAAAAA-VIOOOOOO”.
“O abuso é patente, portanto, não só pelo tamanho do evento, como também pela utilização de estrutura custeada por pessoa jurídica, a caracterizar doação indireta de fonte vedada”, afirma a ação protocolada pela campanha de Lula.
A coligação também sustenta que, sob o pretexto de homenagear Jair Bolsonaro, o locutor conduziu uma manifestação coletiva em favor de Flávio, apresentado ao público como “nosso candidato a Presidente da República”. Na avaliação dos advogados, o candidato do PL aproveitou o momento para fazer discurso eleitoral, com promessas relacionadas ao agronegócio e à defesa da família.
“Houve a transformação do que seria um evento cultural, artístico e esportivo em um verdadeiro comício eleitoral em favor dos Representados Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar. O eleitor que comprou um ingresso para assistir a shows artísticos foi surpreendido com um verdadeiro ato de campanha eleitoral durante o intervalo. Não houve somente o desvirtuamento de um show em comício, mas também ato de campanha em de uso comum cuja veiculação de propaganda é terminantemente proibida”, diz a peça.
A campanha de Lula argumenta ainda que o caso de Barretos viola o entendimento consolidado da Justiça Eleitoral sobre showmícios e eventos semelhantes. A ação cita decisão do Tribunal Superior Eleitoral segundo a qual “a utilização de forma reiterada de showmício e eventos assemelhados como meio de divulgação de candidaturas, com intuito de captação de votos, é grave e caracteriza abuso do poder econômico”.
Outro ponto central da ação é a proibição do financiamento empresarial de campanhas. Os advogados lembram que o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucionais as doações de pessoas jurídicas a campanhas eleitorais, por violarem a igualdade política e os princípios republicano e democrático. Para a coligação, a estrutura utilizada em Barretos teria representado uma forma indireta desse tipo de financiamento.
Além da cassação do registro e da inelegibilidade de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar, a campanha de Lula pede que o Ministério Público Eleitoral seja intimado a atuar no caso. A ação também solicita que, se entender necessário, o órgão investigue eventuais ilícitos criminais e eleitorais e proponha ação penal.
A peça requer ainda a intimação das empresas e dos organizadores da Festa do Peão de Barretos. Segundo a campanha, eles devem prestar esclarecimentos sobre a estrutura utilizada no evento e sobre a participação de Flávio Bolsonaro na programação.
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